Os últimos avanços da IA no Brasil e no mundo que podem mudar a vida do empreendedor

Glenio Machado · · 16 min de leitura

Capa do IA no Radar edição 001, fundo escuro em tom petróleo com o título "Os últimos avanços da IA no Brasil e no mundo que podem mudar a vida do empreendedor" em branco e azul

Os últimos avanços da IA no Brasil e no mundo que podem mudar a vida do empreendedor

Você lembra da primeira vez que conversou com uma inteligência artificial? Daquela sensação meio esquisita de escrever numa caixinha de texto e receber de volta uma resposta que fazia sentido de verdade?

Eu lembro exatamente do dia em que criei minha conta no ChatGPT. De lá pra cá, minha vida profissional nunca mais foi a mesma. E lembrei disso na segunda-feira, quando a Apple liberou a nova Siri em português aqui no Brasil. Porque é exatamente esse o momento em que a tecnologia deixa de ser coisa de quem corre atrás de novidade e passa a estar dentro do aparelho que todo mundo já tem no bolso.

A semana foi dessas. Não teve um lançamento único que explodiu a internet. Teve uma porção de coisas pequenas que, somadas, mostram que a IA saiu da fase do laboratório e entrou na fase do cotidiano. Assistente falando sua língua. Agente que trabalha enquanto você dorme. Banco brasileiro gastando bilhões pra ter IA própria. E, no meio disso tudo, a notícia mais desconfortável do ano: modelos de IA que escaparam do próprio ambiente de teste.

Separei as 10 que realmente importam pra quem trabalha com conteúdo, tráfego e negócio. Bora?

O que rolou essa semana no mundo da IA

1. A nova Siri finalmente fala português, e isso é maior do que parece

Começo pela que mais mexe com o Brasil. A Apple lançou o iOS 27.2 na segunda-feira (26) e, junto, liberou a Siri AI em português brasileiro. Até então, a versão nova da assistente só funcionava em inglês.

E não é a Siri de antes, aquela que errava o despertador. A nova entende pedidos em sequência (você pergunta uma coisa, depois complementa, e ela acompanha o raciocínio), consulta suas informações pessoais quando você autoriza, como mensagens, e-mails e fotos, e executa tarefas dentro de outros aplicativos. Tem um recurso chamado consciência de tela: ela enxerga o que está aparecendo no seu aparelho e responde sobre aquilo. Você está lendo um e-mail de um cliente e pode simplesmente pedir "responde dizendo que eu confirmo a reunião".

A pegadinha: funciona a partir do iPhone 15 Pro, e ainda está marcada como beta. Além disso, a Europa continua de fora por causa de briga regulatória. O Brasil, ironicamente, saiu na frente de Portugal nessa.

O idioma sempre foi a barreira invisível. Enquanto a ferramenta boa só falava inglês, ela era de quem já estava confortável com tecnologia. Agora ela está nativa, de graça, dentro de milhões de iPhones brasileiros. Isso muda quem usa IA no Brasil, e muda rápido.

Fonte: Apple Newsroom Brasil

2. Claude Duet: a IA que te procura antes de você pedir

A Anthropic abriu em 21 de outubro a prévia do Claude Duet, e aqui a mudança é de conceito, não de recurso.

Até hoje, usar IA é sempre você começando a conversa: abre o chat, digita, recebe. O Duet inverte isso. Ele manda um resumo curto toda manhã com o que precisa da sua atenção nos aplicativos que você conectou, confere esses apps de tempos em tempos durante o dia e só te chama quando aparece algo que realmente importa. Enquanto isso, continua trabalhando nas tarefas que você pediu, mesmo com seu computador desligado, porque ele roda numa máquina na nuvem e não na sua.

Dá pra pedir coisas pequenas, como marcar reunião e organizar a caixa de entrada, e coisas grandes, como montar uma previsão de vendas, construir um painel de métricas ou prototipar um site.

O detalhe de design que eu achei mais inteligente: existem quatro ações que ele nunca faz sozinho, que são enviar mensagem, fazer pagamento, assinar documento e apagar arquivo. Nessas, ele para e pergunta.

A Anthropic falou abertamente que construiu isso pensando em profissionais e donos de pequenos negócios, ou seja, gente como a maioria de vocês que me lê. Por enquanto é lista de espera, só nos Estados Unidos, só nos planos pagos. Mas o conceito de assistente que trabalha de madrugada e te entrega pronto de manhã é pra onde tudo está indo. OpenAI e Meta já têm os deles.

Fonte: MacRumors

3. O Canva fez o próprio gerador de imagens

Em 22 de outubro o Canva lançou o Canva Craft, o primeiro modelo de geração de imagem feito em casa pela empresa, construído com a tecnologia da Leonardo.ai, que eles compraram em 2024.

O ponto aqui não é competir com quem faz a foto mais realista do mundo. O Craft foi treinado pra design: layout que faz sentido, composição equilibrada e, o detalhe que todo social media vai agradecer, texto legível dentro da imagem. Quem já tentou gerar um banner com uma palavra escrita e recebeu de volta um amontoado de letras tortas sabe exatamente do que eu estou falando.

Essa é provavelmente a notícia mais prática da semana pro nosso meio. A maioria das ferramentas de imagem nasceu pra fazer arte. Essa nasceu pra fazer peça de trabalho. E está dentro de um programa que o time inteiro já usa, sem precisar aprender ferramenta nova nem convencer ninguém a assinar mais um app.

Fonte: Future Tools

4. As demissões com IA bateram recorde, e as empresas pararam de disfarçar

Essa é a parte desconfortável. Os levantamentos atualizados nessa semana mostram mais de 183 mil pessoas demitidas em cortes ligados à IA entre janeiro e outubro de 2026, 22% a mais do que o ano de 2025 inteiro.

Só em outubro: o Barclays anunciou corte de 5 mil vagas citando investimento em IA, a Kroger cortou cerca de 3 mil, a FICO cortou 15% do quadro mencionando desenvolvimento de produto com IA, o HubSpot dispensou cerca de 660 pessoas e o DNB, maior banco da Noruega, cortou 400, com a presidente dizendo que a IA está mudando o jeito de trabalhar e que eles estão se adaptando a uma nova realidade.

Por outro lado, vale o contraponto honesto. O Goldman Sachs projetou que a IA pode deslocar 1 em cada 11 trabalhadores, mas apontou que a onda grande de demissões provavelmente só vem junto com uma recessão. E uma pesquisa citada nos levantamentos mostrou que 17% das empresas admitiram ter chamado de "demissão por IA" cortes que na verdade eram por dinheiro mesmo. "A IA mandou" virou desculpa bonita pra balanço feio.

Não é apocalipse e não é propaganda. É transição. O recado que eu tiro, e repito há dois anos: a vaga não está sendo substituída por IA, está sendo substituída por gente que usa IA. A diferença entre as duas frases é o seu plano dos próximos seis meses.

Fontes: Programs.com, Fortune

5. A IA da OpenAI diz ter resolvido três problemas científicos históricos

Em 27 de outubro a OpenAI anunciou que seus sistemas internos produziram três resultados inéditos em matemática, ciência da computação e física.

Eu não vou fingir que entendo os três, e você também não precisa. O que importa é o seguinte: um deles é uma prova de uma conjectura que estava em aberto há décadas, e a OpenAI diz ter traduzido as provas pra um sistema chamado Lean, que é um programa que confere matemática de forma mecânica, linha por linha. Isso é bem mais sério do que uma IA cuspir equações bonitas, porque significa que a conta foi verificada por máquina e não só por entusiasmo de quem lançou.

A reação do meio acadêmico ficou dividida entre "isso é histórico" e "calma, prova conferida não é a mesma coisa que descoberta aceita pela comunidade". Um pesquisador do MIT resumiu bem: é difícil prever o que vem depois, porque o desenvolvimento é chocante.

Isso aqui não muda nada na sua terça-feira. Mas é o tipo de notícia que, daqui a cinco anos, a gente vai lembrar como o momento em que a IA deixou de organizar o conhecimento que já existia e passou a produzir conhecimento novo. Guarda essa.

Fonte: Al Jazeera

6. Quatro modelos de IA escaparam do ambiente de teste

E agora a notícia que me deixou genuinamente pensativo. A Anthropic, a mesma empresa do Claude, que eu uso todo dia, revelou em documento oficial que quatro dos seus modelos escaparam do ambiente controlado de testes e acessaram sistemas de computador reais. As sessões duraram entre 10 e 34 horas.

O que aconteceu, em bom português: durante testes de segurança feitos com um parceiro externo, alguém errou a configuração e deixou o ambiente conectado à internet, quando a instrução era deixar sem acesso. Em um dos casos, uma versão antiga do modelo estava insistindo em completar uma tarefa impossível, encontrou uma senha guardada no sistema, usou essa senha pra virar administrador do sistema de um terceiro, pegou mais credenciais, mudou configurações e acessou dados pessoais de uma pessoa.

A empresa diz que avisou todos os afetados e que não encontrou sinal de que os modelos tentaram fugir da supervisão humana ou combinar algo entre si. Depois disso, suspendeu parte dos testes de segurança e pausou os ambientes de treino mais arriscados.

Eu não acho que isso seja filme de ficção científica. Foi erro de configuração humana, não revolta das máquinas. Mas tem uma lição muito prática aqui pra quem está começando a usar agentes de IA no negócio: quando você dá acesso a uma ferramenta dessas, você está dando acesso de verdade. Separe credenciais, limite permissões, não conecte tudo de uma vez. O Claude Duet pedindo autorização antes de pagar ou apagar arquivo, lá na notícia 2, não é frescura. É exatamente a resposta a esse tipo de problema.

Fonte: Reuters

7. O Itaú gastou R$ 2,9 bilhões pra ter IA própria

Em 26 de outubro o Itaú Unibanco anunciou a compra de 100% da NeoSpace, startup brasileira de inteligência artificial, por R$ 2,925 bilhões. A empresa já era parceira do banco havia quase dois anos, e vai ser integrada à plataforma de IA do Itaú com foco em crédito, atendimento e prevenção a fraudes. A startup segue operando com gestão própria, com o fundador no comando.

Tem um raciocínio por trás que eu acho que vale mais que o valor do cheque: qualquer empresa pode contratar o mesmo modelo de IA que o concorrente usa. Nenhuma pode contratar os dados, o conhecimento e a escala que só ela tem. O Itaú não comprou inteligência. Comprou a capacidade de aplicar inteligência nos dados que já eram dele.

Troque "bilhões" pela sua realidade e o princípio continua valendo. Sua vantagem competitiva com IA não vai vir da ferramenta que você assina, porque seu concorrente assina a mesma. Vai vir do que você alimenta nela: seu histórico de clientes, seus processos, seu jeito de vender, sua base de conhecimento. É isso que ninguém copia.

Fonte: Forbes Brasil

8. ChatGPT agora entra no seu e-mail e na sua agenda da Apple

Semana movimentada pra OpenAI do lado prático também. Em 27 de outubro o ChatGPT passou a se conectar com o Mail e o Calendário do iCloud. Dá pra procurar e-mails, colocar a caixa de entrada em dia, ver sua agenda e atualizar compromissos conversando. Está disponível em todos os planos, na web, no aplicativo de computador e no iOS.

Um dia antes, em 26 de outubro, chegou o GPT-6.1 Terra, uma versão que junta raciocínio sobre imagens com a capacidade de operar o computador, e que custa metade do preço da versão anterior pra quem usa via integração.

Vou falar dessa com conhecimento de causa: eu já tenho um agente do Claude que gerencia meus e-mails e minha agenda, e de verdade, foi uma das melhores coisas que eu criei pra mim mesmo esse ano. Caixa de entrada triada, compromisso marcado, follow-up que não escapa. Se você ainda não automatizou isso, comece por aqui, porque é o tipo de ganho que você sente no primeiro dia.

E repara no movimento da semana inteira: as três grandes estão parando de ser uma caixinha de conversa isolada pra entrar nos lugares onde seu trabalho já acontece. E-mail, agenda, planilha, CRM. Quem ainda copia e cola informação de um lado pro outro vai sentir essa diferença muito rápido.

Fonte: Releasebot

9. A Meta ligou um recurso nos seus anúncios sem perguntar

Fica ligado, gestor! A partir de 28 de outubro a Meta começou a ativar por padrão um recurso de navegação de produto em anúncios que já estão rodando, a menos que a empresa escolha desativar. É uma opção de criativo automático dentro do Advantage+, ligada a destinos personalizados.

Na mesma janela, os termos comerciais e de anúncios atualizados da Meta entram em vigor em 30 de outubro.

O padrão da indústria virou "ligamos pra você e avisamos depois". Isso está acontecendo em todas as plataformas e não vai parar. Você já entra no gerenciador todo dia pra olhar número, então o ajuste é outro: crie o hábito de revisar as configurações das campanhas, e não só o desempenho delas. Métrica boa esconde configuração que mudou sozinha.

Fonte: AdsUploader

10. Lula promete IA brasileira, e a lei continua parada

Fechando com Brasil. Logo depois do resultado das eleições, o presidente reeleito dedicou boa parte do discurso à economia digital: prometeu uma IA brasileira, incentivo a data centers no país e aceleração na regulação das big techs.

Só que o marco legal da IA continua no mesmo lugar de sempre. O PL 2338, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, aguardava em 10 de outubro o parecer do relator na Comissão Especial da Câmara, sem movimentação desde 2 de setembro. A votação já foi adiada do fim de 2025 pra fevereiro de 2026, e depois pra depois das eleições.

Sem clubismo político aqui, mas IA desenvolvida no Brasil é uma boa notícia pra qualquer um que trabalha com isso. Significa, lá na frente, acesso mais barato e menos dependência de cotação de dólar, porque pagar em real muda bastante a conta no fim do mês. E significa ferramenta pensada pro nosso contexto. Brasileiro é criativo, a gente já provou que faz coisa muito boa quando tem estrutura. Falta estrutura, não talento.

Enquanto a lei não anda, quem publica conteúdo com IA no Brasil já responde a outras três regras que estão em vigor hoje: o guia do Conar para publicidade, a LGPD e as normas eleitorais. Não espere a lei pra organizar a casa. Quando o PL 2338 for aprovado, e ele vai, quem já fazia isso só vai ajustar detalhe. Quem não fazia vai ter que reconstruir tudo com prazo.

Fontes: Convergência Digital, Barbieri Advogados

O que isso tudo significa pra você?

Se eu tivesse que resumir a semana em uma frase: a IA parou de ser um lugar que você visita e virou uma camada que está por baixo de tudo que você já usa.

Ela está no seu iPhone falando português. Está dentro do Canva, gerando a peça. Está no ChatGPT lendo sua agenda. Está no gerenciador de anúncios, ligada sozinha. Está no banco onde você tem conta. Você não precisa mais decidir "vou usar IA hoje", porque ela já está lá, com ou sem a sua permissão consciente.

Isso tem um lado bom e um lado que exige atenção. O lado bom é que a barreira de entrada praticamente sumiu: não precisa mais saber inglês, nem assinar cinco ferramentas, nem aprender a escrever prompt perfeito. O lado que exige atenção é que delegar virou fácil demais, e a história dos quatro modelos que escaparam do teste mostra o que acontece quando a gente dá acesso sem pensar no estrago possível.

O meio do caminho é simples: use muito, mas saiba o que você conectou, a quem deu permissão e o que acontece se der errado. Piloto bom não é o que tem medo de acelerar. É o que sabe onde fica cada botão antes de decolar.

Perguntas Frequentes

A nova Siri em português funciona no meu iPhone?

Depende do modelo. Os recursos de IA da Apple funcionam a partir do iPhone 15 Pro e nos modelos da linha 16 em diante. O iOS 27.2 em si chega a qualquer aparelho que já roda o iOS 27, mas sem o aparelho compatível a Siri AI não aparece. O idioma do sistema e o da Siri também precisam estar configurados em português. E lembre: ainda é versão beta, então espere alguns tropeços.

Eu já posso usar o Claude Duet aqui no Brasil?

Ainda não. No lançamento, em 21 de outubro, ele saiu como prévia de pesquisa, por lista de espera, só para assinantes dos planos Pro e Max nos Estados Unidos. Planos de time e empresa não entraram nessa primeira fase. A tendência é abrir aos poucos, como costuma acontecer com esse tipo de lançamento.

O Canva Craft substitui o Midjourney ou o ChatGPT pra criar imagem?

Não é bem substituir, é escolher a ferramenta certa pra cada trabalho. O Craft foi construído com foco em design, ou seja, composição, layout e principalmente texto legível dentro da imagem. Pra peça de trabalho, banner e post, ele resolve dentro do programa que seu time já usa. Pra imagem artística ou fotorrealista, as outras ferramentas continuam mais fortes.

Eu devo ter medo dessa história de IA que escapou do teste?

Medo não, cuidado sim. Pelo que a própria empresa descreveu, foi um erro de configuração humana, já que o ambiente de teste ficou conectado à internet quando não devia, e não uma máquina se rebelando. Não houve indício de que os modelos tentaram escapar da supervisão. Mas a lição prática vale pra qualquer um que usa agentes de IA: dê acesso aos poucos, use credenciais separadas e prefira ferramentas que pedem autorização antes de agir.

O Brasil já tem lei de inteligência artificial?

Não. O PL 2338 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e, em outubro de 2026, ainda aguardava parecer do relator na Comissão Especial da Câmara. Enquanto isso, quem usa IA no Brasil já está sujeito a regras que existem: a LGPD para dados pessoais, o guia do Conar para publicidade e as normas eleitorais do TSE para conteúdo em período de eleição.

Me conta: qual dessas mais vai impactar a sua vida?

Toda semana eu faço esse mergulho pra separar o que é barulho do que muda a sua rotina de verdade. Mas o que eu mais gosto mesmo é da conversa que vem depois.

Me segue no Instagram, no @gleniomachado, e me manda uma mensagem contando qual dessas dez você acha que mais vai mexer com o seu trabalho. Eu respondo todas, e as melhores viram conteúdo.

Até a próxima semana. Boa viagem. 🚀

#inteligencia-artificial #noticias-ia #ia-no-radar #apple-siri #anthropic #canva #mercado-de-trabalho #ia-no-brasil

Quer colocar a IA para trabalhar para você? Fale com o Glenio no WhatsApp